A noite estava regada de vinho. Daqueles baratos mesmo, mas era do bom, era aquele vinho que a gente sempre tomava. Enquanto uma escolhia as músicas que embalariam aquela madrugada - até porque, todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite - a outra, que estava deitada na rede, cantarolava junto. Logo depois chegou a vizinha e nos acompanhou. Três garrafas de vinho não foi o suficiente, não mesmo. Era muita roedeira para pouco álcool. Cazuza, Humberto Gessinger, Renato Russo, Fagner e algumas outras estrelas da música brasileira que o diga. Estavam todos lá, só ouvindo as conversas que acabaram rolando decorrente às circunstâncias alcoolísticas.
- Eu queria me apaixonar! (...) Na verdade, eu não queria me apaixonar. Eu queria que a paixão terminasse para eu ter o que escrever.
- HAHAHA, você é louca. Onde já se viu isso???
- Sério, eu queria só isso!
- Ah, eu sinto vontade de estar apaixonada às vezes. Mas às vezes, quase nunca. Queria me apaixonar por um minuto só para satisfazer essa vontade. Depois beleza, poderia acabar numa boa.
Tirei o travesseiro do rosto e entrei na conversa.
- Tô só prestando atenção nas músicas. O que eu sinto falta é de ter alguém que pudesse associar à essas letras. Só ter alguém. Queria era me apaixonar; mas não por esses motivos que vocês deram ou por qualquer outro, queria só pelo fato de poder ficar apaixonada mesmo.
Desde então tive duas noites e um dia inteiro para pensar nisso. É muito tempo para pensar nesse assunto. Pensei, pensei, pensei e nada. Não cheguei a conclusão nenhuma. Nem sei mais se isso não passa de invenção, capricho, babaquice do caralho ou se realmente sinto falta.
Vou roubar as teorias alheias, bater tudo no liquidificador e ver qual é. A originalidade perdeu a graça faizé tempo viu. Não me julguem.
Posso aproveitar esse lance de desamor para pegar o ritmo de escrever. Até por que, sejamos sensatos: mais importante que amar é estimular a escrita e a leitura. E é aí que você ver as coisas melhorando, porque nem precisa esperar a paixão cessar para a inspiração poética ressurgir das cinzas. O simples fato de não poder ter alguém, pelos motivos mais besta do universo, já serve. Veja bem: desejo reprimido, saudades de momentos que nunca existiu, suspirar pelos cantos e tímidas lágrimas em shows de rock e em queimas de fogos de artifícios já são mais do que suficiente para fazer um textículo (Com x gente, preste atenção!) xexelento ou um bestseller da melhor qualidade.
Também tem a opção de ser retraída. Fugir de qualquer tipo de envolvimento, de sentimento, de afeição, de carinho e essas coisas. Eu já me apaixonei várias vezes e já sei como é. No começo é legal ou não, no meio é legal ou não, e no final nunca é legal. Só tem duas alternativas: ser legal ou não. Já provei os dois lados, então não há nada de novo para experimentar. Mas gente, sou robô não. Involuntariamente vem aquela necessidade de ter alguém. Nem que seja por alguns instantes. Só o suficiente para não abusar da boa vontade do próximo e da sua sanidade mental.
Ou posso ser romântica sim. Claro que eu posso. Me apaixonar perdidamente, ter como trilha sonora a música mais clichê dos corações brasileiros: O Último Romance. Que louco seria estar na fila do pão e a galera saber que você encontrou alguém? Seria legal demais, super bacana. Sorrir à toa, beijar na frente dos outros, andar de mãos dadas e tirar fotos juntinhos. Tem mais vantagens também. Tem bem mais, mas eu não lembro agora.
Como previsto, o vinho terminou rápido. E como já era se de imaginar, estar se balançando com a cabeça para fora da rede fez o vinho "pegar" mais rápido. E ainda, ligações inesperadas no meio da noite fez tudo isso ser esquecido. Chegaram mais pessoas, mudaram as músicas e desviaram os pensamentos analítico-amorosos. O assunto em questão agora era: que praia ir naquela semana.
Foi a sobriedade chegando e a necessidade de respostas vestindo o pijama para dormir.
2 comentários:
"Até por que, sejamos sensatos: mais importante que amar é estimular a escrita e a leitura. E é aí que você ver as coisas melhorando, porque nem precisa esperar a paixão cessar para a inspiração poética ressurgir das cinzas"
Já dizia Rubem Alves: 'ostra feliz não faz pérola'
A fossa é a maior fonte inspiradora da humanidade.
Mas, enfim, sobre o apaixonar-se ou não se apaixonar: opte sempre o primeiro, é melhor chorar o fim de uma paixão, do que chorar uma paixão que nunca existiu.
:)
Pior que eu sei.
Mas acho que eu fujo disso, involuntariamente.
Ou, simplesmente, não fico na expectativa.
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