Era uma noite clara. Tanto na luz, quanto na obviedade dos fatos.
Haviam muitos ruídos em sua volta. Tinha a conversa paralela entre amigos, o barulho dos carros que transitavam naquelas ruas asfaltadas, os passos largos e apressados dos transeuntes e o som das folhas das árvores que se chocavam devido ao vento forte que fazia. Era uma noite diferente das outras, ventava muito. Seus detalhes estavam escondidos. Todos passaram por ali e ninguém percebeu, ninguém enxergou.
Com ela foi a mesma coisa: ninguém percebeu, ninguém enxergou.
Embora fosse daquelas que muitos olham, admiram e desejam; ela não pudia ser vista. Pois estava fechada, assim como a fechadura daquela porta. A última pessoa que saiu de lá, trancou e fez questão de dar duas voltas na chave. Para ter certeza, conferiu antes de partir: segurou delicadamente a maçaneta, a pressionou para baixo e tentou empurrar. Não percebendo nenhum movimento, concluiu que fez um bom trabalho. Era tudo o que ela queria: ficar invisível por uns tempos.
Só que ele fez questão de deixar as chaves por perto. Achou que existiriam curiosos, que iriam notar que ela pretendia ser aberta mais uma vez, e alguém queria ver o que estava por trás daquela porta de 1 metro e 57 centímetros. Ele conviveu por muitos meses ali e, apesar de ter ido contra a sua vontade, imaginou que o que viveu merecia ser descoberto por outra pessoa.
Muita coisa se passou desde que ele fechou aquela porta. Muitos passaram por lá. Passaram tão depressa que não faziam ideia do que se tratava. Outros foram curiosos e observaram seus tons, seus sons, suas peculiaridades. Chegaram mais perto e sentiram que ali tinha muito mais. Só que não tiveram interesse de buscar entre tantas chaves. Era mais cômodo permanecer do jeito que estava. Lá fora haviam coisas tão belas, para quê se trancar dentro de alguém?
Foi na noite que ocorreram as mudanças. O frio, a lua, o clima pediam uma descoberta. E um desconhecido descobriu. Na segunda tentativa encontrou a chave que abriria aquela porta, com cuidado deu duas voltas para o lado esquerdo da maçaneta e pôde ver o que se passava por dentro. Sentiu-se confiante só pelo fato de ter conseguido entrar ali tão rápido, sem muito esforço. Observou todos os itens que preenchiam delicadamente aqueles espaços. Apesar do brilho e das cores, viu que lá dentro estava praticamente vazio. Mesmo assim se encantou e pensou que ali poderia ser um bom lugar para ficar.
No momento seguinte percebeu que não precisava permanecer ali. Sabia que poderia visitar aquele lugar encantador sempre que quisesse. Então, sem ser notado, ele pegou a chave e ficou pra si. Voltava sempre que podia para redecorar certas prateleiras que tanto gostava. Pôs dentro de cada caixa colorida um pouco do que queria que fosse lembrado por ela. Muitas palavras e olhares também foram espalhados por lá. Deixou cicatrizes, mas não permitiu que ela marcasse nada. Ele teve medo. Até que um dia - por preguiça ou egoísmo - foi embora sem ter terminado de conhecer todos os porquês.
O que não foi roubado, foi mudado de lugar. Lá dentro estava tudo mais bagunçado e vazio do que nunca. Nem mesmo as chaves que antes haviam sido deixadas lá fora, ele teve coragem de devolver. Levou tudo o que podia consigo.
Por fora as coisas permanecem mais forte do que antes. Enquanto aqui dentro, nada faz mais sentido.
Nenhum comentário:
Postar um comentário