19 de maio de 2011

Hoje, quando entrei no ônibus – ritual diário de uma pobre estudante –, me dei conta do descaso que está sendo feito com a sociedade natalense há alguns anos: quase não há mais o vidro transparente na parte de trás do ônibus! Agora, naquele enorme retângulo, são fixados adesivos publicitários; isso quando o vidro não é substituído inteiramente por um material plástico feio e sem vida. O que restou foi um espaço para o capitalismo desenfreado.

Gente, isso pode destruir a infância de um ser humano de classe média ou baixa. Me lembro claramente de quando eu andava de ônibus, quando era criança. Eu sempre tinha duas escolhas: correr loucamente para a “cadeira alta” ou sentar no fundão.

Na primeira opção, a parte boa era que, eu me sentar na “cadeira alta”, causava uma sensação fantástica de poder. Por uns momentos eu também me sentia alta. Eu via que, mesmo sendo criança, as pessoas que passavam ao meu redor não pareciam tão grandes assim; algumas até ficavam quase do meu tamanho. Além do fato de eu poder puxar a cordinha sem precisar pedir a ninguém. É muito humilhante para uma criança – ou para uma pessoa de baixa estatura – pedir: “moço(a), puxa aí pra mim, vá lá!” Poder fazer isso sozinha, é se tornar independente e sentir que já está preparada pra enfrentar o mundo.

Já na segunda opção, posso afirmar que havia mais aventura e adrenalina. Uma vez que, ao chegar ao último banco do ônibus, eu não me sentava de uma forma clichê. Criança que é criança ficava de costas para todos, se colocava de joelhos na cadeira e segurava firmemente no ferro para não cair. A adrenalina se iniciava no ato, simplesmente porque você estava indo numa direção contrária da movimentação do coletivo, e tudo isso é uma sensação física alucinante.

A aventura começa quando rola uma interação com quem está fora do ônibus. O bom é socializar com quem está nas calçadas, nas motos, nos carros ou em outros ônibus... e o melhor é que não corre risco de vida. Já nas outras cadeiras não tão animadas assim, a única forma de socialização externa era colocar a cabeça para fora do veículo. E essa ação é extremamente proibida e perigosa. Jamais tentem fazer isso. Até porque, por mais que a chance alguém ser decapitado vorazmente seja remota, sempre há a possibilidade de o ônibus passar próximo de uma árvore e o galho ou as folhas, lascarem seu rosto. Podendo até deixar uma cicatriz forever. E nada disso é legal.

Logo, a cadeira de trás é (ERA) a mais animada. Uma criança meiga e gentil faria contato com as pessoas da rua através de sorrisos, acenos como “tchau” e “legal”, beijinhos e tudo de feliz que há no mundo. Porém, uma criança com os cão no côro faria caretas, estirava o dedo, a língua, riria das desgraças alheias apontando, além de fazer tanto barulho dentro do ônibus, que os adultos olhariam para trás com uma expressão de reprovação.

Ahhhh, mas tudo isso é válido. Sendo uma criança de Deus ou uma criança do capeta, todas têm direito de aproveitar os momentos de felicidade à sua maneira. Afinal, aquelas longas viagens da zona norte pro centro da cidade, para ir ao dentista tinha que ter alguma diversão. Eu tinha total direito de sentir o prazer da felicidade, antes daquela féla da puta da dentista usar aquelas máquinas insuportáveis nos meus dentes, me fazer cuspir com a porra e colocar um flúor tão forte que me causava agonia no cérebro.

Foram essas pequenas coisas, momentos de alegria e de descontração que foram tiradas das crianças dessa cidade e que me revoltou nessa tarde de quarta-feira. Tenho pena das crianças de hoje que, obrigatoriamente, se limitaram a utilizar o transporte público de maneira tão enlatada e sem graça.

4 comentários:

Unknown disse...

Boas observações sobre o seu dia.

Agora eu lembrei quando eu pegava o ônibus e adorava ir sentado no "quentinho" lá atrás... Sim, era o motor "das antigas" que tinha nos ônibus! Era tão aventura!

xD

Beijo!

Sylara Silvério disse...

menino, esse quentinho também arrasava!
ai ai... bons tempos aqueles em que andar de onibus me fazia feliz.

Taynara Souza. disse...

Rapaz, nunca deu pra ter essas aventuras, afinal qual o prazer que se tem em pegar o 03? Ontem, hoje ou amanhã, ele sempre será a mesma merda. hauehuaheuaheuahueha'
PS: Muito bom o texto, parabéns.

Sylara Silvério disse...

porra amiga... que infância de merda, ein? perdeu umas das melhores coisas da vida.