9 de junho de 2011

O que a falta de uma vírgula numa frase pode causar na cabeça de uma criança?

Um dos meus maiores questionamentos na infância se referia aquela frase já malhada que há dentro dos ônibus: “Fale ao motorista somente o indispensável.” Cara, isso era bastante confuso para mim. Principalmente porque a frase sempre era colocada da seguinte maneira:

Fale ao motorista
somente o indispensável.

Para deixar claro, o “enter” me dava impressão de vírgula. Então, eu tinha duas dúvidas. Primeira: porque não podíamos falar com o cobrador? Segunda: que tipos de assuntos eram relevantes ao motorista em questão?

Tudo bem que eu nunca fui socialmente comunicativa, apesar de ser absolutamente tagarela. Não tive o dom que minha mãe teve; o de iniciar uma conversar com qualquer ser humano no coletivo e falar sobre coisas nada a ver, ou tudo a ver com a situação. Não mesmo. Sempre evitei isso, tinha agonia latente quando mainha fazia amizades com pessoas que nunca mais veria. Jurei para mim mesma que jamais seria assim. E que faria um bem maior para a humanidade não-social: ignoraria todos que quisessem tentar algo semelhante. Tive uma significativa ajuda com a tecnologia, podendo usar fones de ouvido e fingir que nada ao meu redor existia. Uso essa tática com alguns conhecidos também, mas isso não vem ao caso.

O fato é que, ao ler aquela minúscula placa, eu sentia uma vontade imensa de falar com o motorista. Queria conversar com ele sobre a vida, contar piadas, ouvir possíveis histórias sinistras que rolava no corujão ou, até mesmo, questioná-lo sobre a razão de colocarem no ônibus, que a capacidade máxima de passageiros em pé era de X, quando, na verdade, cabia X.Y³ (quero dar impressão de muita gente, se os cálculos estiverem errados, ignorem, não sei matemática).

A parte “somente o indispensável” era desafiadora. Ela realmente me instigava a bater um lero com o motorista. Eu pensava no que tanto tinha a dizer, já que era indispensável falar com ele. Tinha uma vontade grande, mas um medo maior ainda. Medo? Porque medo? Bem, sem querer generalizar, mas já generalizando; eles são gordos, feios, velhos, têm bigodes e a unha do dedo mindinho é enorme. Imaginava que, por serem estranhos, eles eram solitários. “Talvez seja justamente por isso que os patrões desejam tanto que alguém se comunique com eles” pensava eu, insanamente.

Hoje não sou doutora em Letras, mas entendo um pouco de gramática. Entendo que a real intenção desse aviso é de não conversar com o cara. Acho justo, pois não permite a comunicação coletiva no coletivo. Mas, pensando bem, se eu tivesse obedecido meus instintos na época, hoje eu poderia ter mais histórias pra contar.

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