Nada se move de lugar. As coisas vão se entulhando num ritmo acelerado, sem a menor preocupação de sofrerem ajuste ou uma organização forçada. É estranho, apesar de ser um tanto quanto previsível, o fato do lado externo das coisas ir se assemelhando com esse enorme espaço interno.
Meus olhos não param de coçar, tudo se torna embaçado e as cores vão sumindo as poucos. Mas ainda dá pra observar o pôr-do-sol. Ainda consigo assistir sua ida, sentada na escadaria do ginásio poliesportivo da universidade. Só que tudo fica inquietante. Meus lábios estão ressecados e minha pele também. Meu rosto parece estar envelhecido e eu tenho apenas 23 anos. Se fosse o entra e sai constante das salas com ar-condicionado e das andanças pelo sol escaldante, seria justificável. O que acontece é que existe uma boa possibilidade de ter doença no meio disso. Alguma delas. Existem tantas e com nomes tão diferentes e difíceis... não faço ideia se realmente é, e qual deve ser. Desconheço a definição da imensa maioria.
Eu deveria ir ao médico. Minhas mãos e meus pés sempre esquentam e eu já vou pensando no fim. Não no fim dos sintomas, mas no meu próprio fim. Penso que ele está mais próximo do que deveria ser. Pode ser meio horrível de ser ler ou até dramático de se dizer, mas é que pensar assim é mais prático.
Por consequência, vou pensando em como as coisas terminarão. Ensaio e atuo em muitos dos meus futuros momentos. Mesmo eu sendo a roteirista, não vou pensando pelo lado fofinho e não caio no clichê dos finais felizes. Só penso em coisas. Das mais realistas possíveis.
Eu sinto muito. Venho sentido um bucado. Sentindo tudo. Mudo um pouco da rotina, sigo outras rotas, desço em outros lugares, caminho mais. E por caminhar mais, não entenda como vestir um conjuntinho de calça e top de lycra de academia com tênis de amortecedor e andar pelos acostamentos das ruas ou nos bosques. Na verdade, caminho quando volto para casa com uma mochila pesada, calça jeans, blusa regata e sapato fechado às vinte e duas horas de um domingo, em umas das principais avenidas da cidade.
E aí que você passa por várias pessoas, de vários estilos, com várias caras. Escuta um pouco de cada voz, ouve seus próprios passos e observa as luzes dos carros que surgem e desaparecerem velozmente. O vento frio ajuda a criar novos ambientes, a música alta do fone de ouvido também. Às vezes saio ao meio dia, sob um sol forte, sem brisa nem nuvens. Usando um short curto, sandália havaiana, camisa grande e nenhuma gota de protetor solar nas tatuagens.
Acabo tendo ótimas ideias. Vejo como a cidade é composta por artes. Por todo canto há expressões, caos, representações e sentimentos. Frases fixadas em paredes pelas tintas mais vagabundas exprimem realidade, reflexão.
O Alzheimer se agrava. Se não estiver com papel e caneta em mãos, tais ideias não serão executadas, tampouco lembradas. Felizmente não existe nenhum desses homenzinhos europeus que intitulam doenças crônicas, que serão capazes de me fazer esquecer dos detalhes, dos sorrisos, do cheiro e da dor.
Mesmo que eu acabe não relacionando nada com nada, no final.
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