De acordo com as estatísticas mais recentes, um bom tema para as conversas paralelas de populares é o questionamento sobre o clima. Andar de ônibus - frequentemente ou não - é sinônimo de vivência, de troca de experiências, de amores relâmpagos e de amizades instantâneas.
O motorista parecia estar apressado, as trocas de marchas eram bruscas e causavam um vai-e-vem sincronizado de pescoços alheios. Além das aceleradas na primeira marcha e das freadas constantes, os vidros estavam obrigatoriamente fechados, devido a forte chuva que escorria pelo lado de fora da janela. Logo, aquele abafado era a melhor sensação térmica que se podia desfrutar no momento.
- tá tendo engarrafamento, é?
- acredito que sim.
A pergunta foi um tanto quanto inusitada. O ponto de vista da situação era o mesmo para os dois, então a resposta não poderia acrescentar nada mais do que estava sendo visto por quem questionava. Até porque, dizem por aí, que a "imagem vale mais do que mil palavras". Educação ainda está em voga, acredito que só houve reposta por este motivo.
- e essa chuva, ein?
- pois é.
Era perceptível a vontade de não falar. Mas também não podemos julgar, afinal, qual interesse haviam nas perguntas? Qual o atrativo em formular respostas mais consistentes? O clichê já estava impregnado nas perguntas, as respostas poderiam seguir com o mesmo processo empacotado que não iria ofender ninguém.
- vivemos num regime de prisão semi-aberta, concorda? ficamos em casa, depois pegamos ônibus para ir para dentro de um prédio trabalhar ou para dentro de outro estudar até tarde, depois voltamos nestes mesmos ônibus e finalizamos o dia dentro de nossas casas.
- é, pensando por esse lado, é verdade.
Agora, o inusitado se caracterizou pela percepção filosófica do cotidiano e, mais ainda, pela introdução do assunto naquele momento que, apesar de ser coerente, foi colocado por um estranho qualquer. Houve até um sorriso do outro lado, não apenas como sinal de ter concedido um abertura para um diálogo mais profundo, mas principalmente por achar interessante o fato das pessoas quererem conversar com as outras pessoas pelo simples fato de querer se comunicar, sem ser por obrigação social.
- alguns veem liberdade numa viagem de ônibus por uma estrada longa, um enorme nada ao redor e apenas asfalto pela frente. eu vejo como mais uma maneira de prisão. e essa é pior porque não tem pra onde fugir, não tem pra onde correr, não tem uma saída de emergência. é só um gigantesco nada.
- tudo é uma questão de ponto de vista mesmo, ver as coisas por outro lado faz a gente enxergar mais possibilidades. ou não, como no seu caso. você não precisa enxergar as coisas como todo mundo, mas pode encontrar algo que te liberte dessa prisão.
Seria prepotente achar que essa análise filosófica só foi levantada para que pudesse enxergar uma nova forma de pensamento, uma válvula de escape ou um habeas corpus. Muitos sabem que soluções devem tomar, mas aguardam a confirmação do outro só pra ter mais segurança. Tem também a chance do silêncio ter se instaurado naquelas últimas cadeiras desconfortáveis do ônibus, porque não concordou com absolutamente nada do que foi dito nessa última resposta e viu que não valia mais a pena continuar o início daquele debate.
- aqui é a minha parada? não sei, não dá pra ver ainda. acho que é! será? ah, é sim. tchau.
-tchau.
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