Eu não sei como vim parar aqui. De repente me encontro dentro de um ônibus com destino a uma praia urbana, me dou conta que estou sem dinheiro, não tenho crédito no Mastercard e estou somente com a passagem de volta. Continuei mesmo assim.
Vim com a intenção de poetizar, de sentir-me como naqueles filmes onde em alguém sentado sozinho na beira da praia, olhando o pôr-do-sol e escrevendo. Pensei até em me comportar de maneiras como se soubesse que estava sendo observada por algum cineasta amador: deixar o cabelo solto ao vento, ficar minutos apreciando o mar sem me distrair, escrever com expressão séria e observar as pessoas caminhando.
Mas fui boicotada logo de cara. Inacreditavelmente, percebi que o sol se põe do lado oposto. Na minha doce inocência, acreditava que o sol sempre se punha no horizonte do mar, sem exceção. Então, cá estou eu: sentada à beira mar, sem nenhum raio solar me tostando, com pessoas demais ao me redor, além das nuvens carregadas d’água. Antes mesmo de sentar-me, caíram algumas gotas, mas não passou de borrões nas palavras no papel. Então, eis que surge um tímido arco-íris em meio desse céu cinzento misturado com o alaranjado do pôr-do-sol do outro lado dos prédios.
Mesmo não estando num clima hollywoodiano, observo quem passa por mim. Tem de todo tipo: trabalhadores de escritório, com sapato social sendo carregado nas mãos, gravata afrouxada, camisa desensacada e sem terno; caminhando rápido e sorridente. Os casais felizes, caminhando de mãos dadas e com sorrisinho no rosto, são os que mais ocupam as areias; vale até pular em cima das costas de “mô” pra ficar mais clichê. Teve também turista vindo perguntar - como quem não quer nada - à pseudo-escritora jovem e tatuada sobre as baladas da cidade, numa tentativa frustrada de descobrir se ela seria uma daquelas prostitutas que tanto falam no exterior e na Globo.
Eu não sei o que vim fazer aqui. Nada está claro, tudo parece muito igual. Vim em busca de surpresas, de novidades; mas foi em vão. As luzes do calçadão já estão sendo ligadas. Está na hora dos surfistas e praieiros irem embora. Agora, é a vez dos amigos se reunirem em rodinha, jogar conversa fora e encher a cara; e os amantes... bom, está na hora deles se amarem.
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