Eu preciso escrever. Não somente por essa ação servir com uma terapia e me fazer entender meus próprios pensamentos. É principalmente, por eu necessitar que minhas memórias sejam mais reais e concretas, que elas possam ser provadas e revistas em qualquer momento.
Eu deveria ter começado a escrever desde que aprendi a escrever. Há muitas coisas que não me lembro. Coisas que eu deveria me lembrar. Alguns lugares mudaram, foram reformados, destruídos. Lugares nos quais eu passava quase que diariamente, e hoje, não faço a menor ideia de como eram.
Mesmo antes de vir morar desse lado, eu já andava por Nova Parnamirim. Vinha visitar meus tios e primos e, bom... não faço ideia de como era a Ayrton Senna antes da duplicação. Lembro de andar nas latas velhas – chamada ônibus –, observar as ruas e casas, mas não consigo recordar dessa avenida sendo uma de via dupla comum.
E quanto aos viadutos desta cidade? Todos eles foram construídos há mais de 22 anos? Acredito que não. Então, alguém me explica como posso não me lembrar de como as avenidas eram! Nem falo tanto dos viadutos de Ponta Negra e do IV Centenário (pelo nome deste, ele deve ter sido construído na época em que a cidade completou 400 anos, que seria aproximadamente em 1999 e eu já estava bem viva), pois eu nem andava tanto assim por aqueles lados.
Quero explicações, se possível, referentes ao Viaduto de Igapó. Aquele bendito viaduto que trafeguei por anos. Desde a 6º série estudei no Alecrim e tinha de passar por lá, obrigatoriamente. Até antes, quando era necessário fazer aquela rota para ir às consultas médicas, comprar roupas e tudo mais; na maioria das vezes, no centro da cidade e algumas outras em Igapó mesmo.
E então? Como era aquele cruzamento sem o viaduto? Não sei. Só me recordo de achar as luzes do novo túnel legais e de sempre gritar pra fora do ônibus, podendo ouvir o eco no túnel. Mas porque raios minha memória apagou o que existia antes disso?
Vamos a uma realidade mais recente: o shopping Midway. Na minha cabeça, o Midway existe desde sempre, mesmo tendo comemorado seu aniversário de 6 anos no mês passado. Nos tempos de outrora, habitava ali naquele enorme terreno de inúmeros metros quadrados e retangulares, uma fábrica de tecidos chamada Guararapes. Bom, isso é o que dizem! Porque eu não lembro de absolutamente nada sobre aquele local.
Lembro de treinar Judô no Cefet, provavelmente no ano de 2003 ou 2004, e ver aquela construção. Havia várias máquinas, concretos, trabalhadores de capacete e toda a área ao redor foi isolada para evitar acidente com os pedestres. Eu até falava: “nossa, isso não vai terminar nunca!”.
Naquela época eu deveria saber o que existia antes de tudo aquilo surgir. Porém, hoje em dia, minha cabeça não encontra nada que possa preencher o espaço daquele terreno. Queria voltar no tempo e ter anotado em algum canto o nome e os detalhes sobre o lugar, além de ter tirado várias fotografias em todos os ângulos possíveis, para nunca mais me esquecer e poder guardar para toda eternidade.
A cidade continua na sua constante mudança. O antigo Vila Manjarie – pizzaria que tanto nutriu os natalenses com rodízios de pizza e refrigerante grátis – hoje foi destruído também. Num dos dias da demolição, passei por lá. Uma semana depois, passei novamente, vi aquele vazio e por 10 segundos me esqueci totalmente que porra era aquela. Por sorte tenho registros fotográficos e algumas histórias no local.
Pois bem, a partir de hoje, prometo que vou me lembrar de como as coisas eram antes. Irei me esforçar ao máximo! A Copa do Mundo vem pra Natal em 2014. Muitas reformas e construções serão realizadas. O Machadão será destruído, terão de fazer mais viadutos e túneis. Tenho que me preparar para guardar essas lembranças. Não posso confiar muito em minha memória. Preciso escrever.
Um comentário:
A nossa memória é um conjunto das nossas lembranças individuais e coletivas. É deveras preocupante que uma jovem na sua idade que desconheço não lembre de certos detalhes que são mais próximos do tempo presente. Vou tentar reavivá-la.
Em 1990 sai do bairro Nordeste para o conjunto Alvorada II, que fica na estrada da Redinha. Naquela época para chegar lá tínhamos que passar pela ponte de Igapó. Só havia uma construção para o trafego de ida e volta. A estrada era de paralelepípedo. Poucos carros transitavam por alí. Era um "Deus nos acuda" sair de casa para o centro da cidade. O engarrafamento era enorme. Ficou maior quando começaram a construir a outra via de escoamento da Zona Norte. Foi no governo de Garibaldi Alves Filho. Passávamos mais de uma hora. Teve um dia que ficamos parados no trânsito por três horas. Chegamos em casa já passava das nove da noite. Mas mudou.
Quanto à área próximo à Urbana era para o trânsito que vinha das Quintas e seguia em direção ao Alecrim. O trânsito era pouco pela avenida Bernardo Vieira. Os ônibus do bairro Nordeste entravam naquela avenida próximo ao Posto de Gasolina que está desativado. Era mão e contra-mão. Aos poucos, com o crescimento da Zona Norte, que chegou ao final dos anos 90 com quase 300 mil habitantes, a coisa foi mudando. Então no início dos anos 2000 foi preciso a construção do viaduto. Outro tempo de grandes engarrafamentos. Diziam que iam indenizar os postos de gasolina e as casas que tinham por ali para ampliar a entrada para a Zona Norte. Mas como os governos desprezam aquela região, a situação não melhorou, mesmo com a nova ponte Newton Navarro. Os engarrafamentos continuam pela manhã e à noite, tudo por causa de algumas paradas de ônibus que dificultam o acesso.
Por fim, quanto à Fábrica Guararapes, ela tinha muros altos e um portão grande onde os funcionárias entravam. A parada de ônibus era do lado do muro e quando dava por volta das 5 ou 6 horas era um tumulto com as mulheres e homens saindo da porta da fábrica para pegar os ônibus. Depois veio o período da construção que voce relatou.
Essas memórias devem ser escritas para preservar a nossa história.
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