As rugas no rosto mostravam as marcas do tempo. O fato de subir pela porta de trás do ônibus, dava pista de sua idade. Mas não me parecia ser como as outras senhoras, não me lembrava aquelas que costumeiramente caminhava em passos calmos. Seu olhar tinha pressa, suas mãos não paravam quietas: abria a bolsa, coçava os olhos, mexia no cabelo e ajeitava as pulseiras de enormes pedras azuis.
Sua inquietude era semelhantemente exagerada com sua roupa de cores marrom. Pele escura, tom sobre tom, blusa de estampa meio hippie, daquelas facilmente encontradas em lojinhas de artesanato.
Num de seus movimentos bruscos, mexeu novamente aqui e acolá na bolsa de couro e dessa vez pareceu encontrar o que procurava. Era um terço de madeira. Ela o pegou e embolou na mão esquerda. A outra mão, levou delicadamente ao rosto e fez o sinal da cruz. Em seguida, segurou na bolinha do Pai Nosso e rezou. Não emitia som algum, só dava para ver seus lábios se mexendo rapidamente. Os dedos não paravam e aquela bolinha também não.
Lembrei da minha infância, onde era comum minha avó reunir as senhoras da igreja em sua casa durante várias noites para a novena. Elas rezam alto, havia hinos que acompanhavam todas aquelas orações. E eram as velas que iluminavam a área de vovó naquelas noites de reza, o reflexo das luzes amareladas nos óculos grandes e redondos daquelas senhoras, se tornava inevitável. Eram nove noites e várias vozes, elas não tinham pressa.
Ao contrário daquela senhora do ônibus, que conseguiu apenas chegar na primeira bolinha da Ave Maria. Pois logo depois embolou tudo de novo, jogou o terço de qualquer jeito dentro da bolsa e desceu na parada seguinte.
Nenhum comentário:
Postar um comentário