Enquanto isso os adultos usavam
boné para se proteger do sol. Não somente como proteção, eles também usavam aquele acessório com o símbolo
de um movimento que foi o motivo deles estarem reunidos ali. O que acontece é que eles não têm terra. Fala-se tanto sobre direitos e deveres e o que cada cidadão pode possuir, mas alguns não possuem nem o mínimo. E o mínimo que alguém deve ter é o direito de moradia.
Se ocuparam num pedaço de chão
que estava sem dono e agora um grande latifundiário vive de entrar na justiça para tirar aquelas inúmeras famílias dali. Até então, foram duas tentativas que falharam. Mesmo assim, aqueles quem não têm certeza de onde vão morar, colocam a cabeça no travesseiro toda noite e temem com um amanhã em que não seja mais
possível acordar no seu humilde barraco. Principalmente Pétala.
Nome que remete a flor, realidade de cravo.
Não menos feminina do que qualquer outra mulher, Pétala lidera as reuniões, assembleias
e delibera todos os passos do acampamento. Se veste com bota de couro marrom,
calça jeans, blusas com cores leves e amarra parcialmente seu cabelo longo e cacheado. Usa o chapéu vermelho do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, e o óculos escuros é para se proteger do sol e da poeira. Fogos de artifícios é o mecanismo utilizado para anunciar que a assembleia vai se iniciar. Depois de reunir todas aquelas pessoas debaixo da tenda, ela repassa os informes, aponta os lados negativos e comemora as vitórias conquistadas.
Em frente ao seu barraco, enquanto cede alguns copos de água para os visitantes, ela reclama do cansaço, do descaso de
outros companheiros e da falta de oportunidade de intimidade com o esposo, mas
não pensa em parar de lutar. Caminha todos os dias em volta dos barracos que
são organizados por ruas. Ruas que têm nomes de mulheres que lutaram e
fizeram história. E fala com orgulho dos espaços de discussões que são liderados pelas mulheres do seu acampamento.
8 de Março foi o dia que eles montaram suas barracas de lona naquelas terras e é também o nome que leva o
acampamento que Pétala coordena. A data que eles vão conquistar sua luta, ninguém sabe ainda. Naquela tarde de domingo, na margem da
capital do Brasil, uma companheira gritou: Eu sou brasileira e não desisto
nunca.
É assim que Pétala, os companheiros do Acampamento 8 de Março pensam e do MST pensam.
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