Fiquei desajeitada com esse troço. Não sei mais como reagir nem quais palavras proferir. Tudo à minha volta, aos poucos, vai perdendo o sentido, e aquela facilidade em perceber os minuciosos detalhes estão escorrendo pelos meus olhos. Isso só mostra o quanto a distância de algo que você gosta, acaba por destruir sua habilidade em ser.
Minha habilidade de ser misteriosa está abruptamente sendo descoberta. Me sinto desconfortável com a exposição em plena luz do dia. Às 5h de todas as manhãs já está tudo ali bem claro. As cortinas já amanhecem abertas, não consigo me lembrar de deixá-las fechadas ao dormir.
O medo vai se entranhando na minha pele de tal maneira que não consigo mais soltá-lo. Aperto com força todas as partes do meu corpo, numa tentativa frustada de expulsar a insegurança que só me faz querer ficar deitada numa cama velha, encostando meu rosto em travesseiros que nem estão forrados. Quanto mais eu durmo, mas tenho vontade de dormir.
Perdi a prática de ser aquilo que sempre fui, que sempre quis ser. Quis ser o que estou me tornando e a responsabilidade está caindo em cima de mim como um piano cai de cima de uma casa do 8º andar, tal como nos desenhos animados. Aquele peso todo em cima de mim, vindo numa velocidade de sei lá quantos quilômetros por hora, não me mata, mas machuca e me deixa vendo estrelinhas.
Só me resta adaptar essas estrelinhas para outra realidade.
Talvez aquela que me permita estar sentada à noite, na beira da praia, observando o céu.
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