Coloquei um filme na câmera analógica. São 36 poses.
Me limitei, tenho de pensar muito bem antes de clicar.
Preciso ter certeza dos locais, das cenas, das pessoas... ou não.
Ou eu posso apenas passar pelos cantos e apertar o botão.
Ou eu posso apenas passar pelos cantos e apertar o botão.
A imagem pode ficar tremida, a luz pode ficar muito forte, o escuro pode tomar de conta.
Tudo isso pode, mas o que não pode é ver o resultado imediatamente.
Colher só se pode depois de plantar. Depois de colocar a semente da captura dentro de uma geringonça escura e apaixonante. A imagem fica lá, ganha forma, ganha conteúdo, fica miudinha, quase que do tamanho de uma 3x4. Daquelas que a gente tem na carteira de motorista. Na carteira de estudante também.
Mas a gente tem muito mais do que um rosto sério num fundo branco ou azul. Tem a rua, tem um cachorro, tem a parede do quarto com fotos de dois anos atrás. Tem muito mais do que a avenida principal da cidade, tem o cantinho de um cruzamento especial, e tem o mar. Tem o amor nos olhos, o amor nos sorrisos, o amor nos gestos das mãos. E tem muita gente com um rosto sério num fundo branco ou azul.
(...)
Acabou! Como que em um desfile na semana de moda de uma cidade importante, as poses já foram usadas e mostradas.
Agora rebobina, coloca num tubinho branco, faz um viagem de ônibus e entrega nas mãos de alguém confiável, que sabe o que está fazendo. Nas mãos de alguém que diz: a entrega é em 24 horas!
Imagino que é igualzinho nos filmes de cinema: vai ter alguém que vai entrar numa sala pequena, cheia de bacias brancas e retangulares com água. Se não for água, é algum tipo de líquido transparente. De alguma forma mágica, esse líquido que deixa o negativo em banho maria, amplia o que era bem pixototinho e deixa dum tamanho normal, tradicional. Deixa do tamanho esperado. Do tamanho que cabe na maioria dos porta-retratos que encontramos em lojas de variedades de R$ 1,99.
Tem uma luz vermelha. O papel passa de bacia em bacia. A foto vai surgindo aos poucos, como efeito de transição do moviemaker. Depois essa pessoa que entende desses mistérios da vida, pendura a foto com um pegador num varal nesse mesmo quartinho. E pronto, o retrato tá revelado.
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