Tudo é uma questão de costume. Até um tempo atrás eu era condicionada a conviver e achar normal certas coisas. Hoje em dia, certas coisas me parecem estranhas e inaceitáveis.
Paredes, grades, muros e porteiros tomam conta das escolas. Tudo é regrado, chegar tarde não pode, sair a qualquer hora também não. Tem gente que chega, olha pra mim e diz: isso é questão de respeito e disciplina. Eu paro e penso: agora foi que deu, pra mim isso é prisão.
Ok. Aí você tá crescidinho e é hora de ir para uma universidade. Depois de várias tentativas, você consegue entrar lá. E é lá numa universidade pública, que todo mundo fala bem e que todo mundo quer entrar. Não sei qual a realidade de todas as universidades públicas do Brasil, só conheci a UnB (que é bem ao ar livre, tipo a UFRN) e a UFC (que é mais trancafiada). Só sei que me acostumei com esse tipo de escolas (nos encontros estudantis, os militantes chamam as universidades de escolas, achei estranho mas é coerente), de aprendizado se paredes, sem muros, sem prisões.
Tá, tudo bem que as coisas não são bem assim. É sabido que, apesar do Setor II ser todo liberal, ainda é preciso ter uma matrícula para continuar por ali. Se bem que, mesmo quem não tiver esses benditos números, pode até estar na sala de aula, pois, dificilmente alguém vai pedir para um não-aluno se retirar.
Só que o mundo não é tão florido assim. Certa vez eu fui lá na UnP da Roberto Freire. Fui para uma entrevista de emprego para editora de vídeo, carteira assinada, de segunda a sexta; uma coisa linda. Saí até esperançosa. Encontrei uma amiga que estuda lá e fiquei conversando até a hora da minha aula começar e eu ter de ir embora.
Mas eu só consegui ir na entrevista, porque uma moça simpática me disse onde ficava a sala e me deu um cartão de visitante. Passei pela catraca e o guardinha lá apreendeu meu cartão. Na volta, fui barrada pois não tinha nada com um código de barras que pudesse ser lido por aquelas luzinhas vermelhas. Depois de conversar e de ter dito que ele tinha ficado com o cartão, foi que ele sorriu e disse: "ah, verdade, desculpa. É que passam várias pessoas aqui e as vezes me esqueço quem tem ou quem não tem o cartão". O senhorzinho pegou o cartão dele e a catraca deu sinal verde pra eu passar.
Ao encontrar minha amiga na praça de alimentação, desisti de comer ao ver os preços exorbitantes das cantinas no lado esquerdo do salão, apesar de, no lado direito, as salas de aula do curso de Gastronomia ter vários pratos jogados no lixo. Perguntei o por que de não distribuírem e eis que me responderam: "vai que a comida esteja estragada e dê um piripaque em alguém?" Vixe maria!!! Eu respondi: "pois é, vai que..."
Nós conversamos por horas e nem percebi o anoitecer chegando. Tudo ao meu redor era parede e os vidros tinha película fumê dos dois lados, além daqueles adesivões na frente, que mostram as vantagens de se estudar ali. Por dentro, não dá pra se ter noção do mundo lá fora.
Sei lá, tem coisas que eu não entendo. Como na reportagem que saiu em rede nacional, que uma escola estava levantando um muro para separar os alunos com deficiência física dos alunos "normais". E quando foram entrevistar o diretor da escola, atrás dele e daquela ruma de baboseira que ele argumentava, estava uma frase de Paulo Freire colada na parede.
Assim como tem aquelas escolas particulares, uma das melhores da cidade, que tem os alunos que são capazes de aprender mais do que os outros e que não concebem a ideia de algumas inclusões. A maioria deles acham isso um absurdo, argumentam algo sobre a meritocracia. Mesmo assim, nas paredes da sala do 9º ano, tem uma frase de Paulo Freire colada na parede em letras garrafais: "não há quem sabe mais ou menos: há saberes diferentes!"
O pobi... Diante da realidade de várias escolas brasileiras, ele nem deve mais se contorcer, ele deve é sambar de tanta raiva dentro do caixão.
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